Yvonne

YVONNE DIMANCHE, funcionária do Banco do Brasil aposentada, escritora por prazer e uma das primeiras colaboradoras de O Boletim


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Uma agradável viagem - Parte 1

Queridos leitores, devo ser uma das poucas pessoas neste vasto país continental que não gostam do verão e de tudo aquilo que ele representa. Depois que vim morar em Guarapari a coisa piorou. O que é um oasis vira uma verdadeira bagunça com turistas mal educados. Então o que fazer para ficar longe de tudo isso? Ir para Fortaleza, Salvador ou Recife? Se está ruim aqui, imaginem nessas cidades.

Passamos 10 dias bem agradáveis no Rio. A cidade estava cheia e não encontramos vaga em hotel algum (de pequeno porte, bem entendido). No entanto, o Rio é imenso e com as férias escolares o trânsito fica melhor, o que não é o caso em Guarapari. Curtimos tudo de bom que a cidade oferece e foi muito legal, mas o que fazer depois para fugir daqui? Decidimos ir para uma cidade nem um pouco charmosa, sem graça alguma e cuja população local foge nas férias: Brasília.

Estávamos devendo a uma querida amiga uma ida a sua casa há 6 anos e dessa vez resolvemos cumprir a promessa. Minha última visita à Brasília se deu em 1981 e nunca mais retornei. Esperava encontrar aquela coisa de sempre e qual não foi a minha surpresa quando vi uma cidade linda, limpa, com um verde que chega a ferir os olhos e muitas flores.

Planejada pelo Lúcio Costa a ter no máximo 750 mil habitantes, Brasília tem agora mais de dois milhões de brasilienses nativos ou adotados. Infelizmente o Plano Piloto se perdeu no tempo e pela necessidade de ampliar o espaço da cidade. Todavia, ainda existe algum critério de não mudar as características do local. A capital federal, antes com um punhado de pessoas que saíram de suas cidades para tentar algo melhor, agora tem um rosto. São milhares de pessoas que não a trocam por lugar algum e se sentem felizes por morarem lá.

Poucas foram as coisas que não me agradaram. Uma delas é ter noção de que jamais poderia viver uma cidade que me obriga a ter um carro. Eu e meu marido não dirigimos de jeito algum, ainda que soframos tortura chinesa. Táxi nem pensar por ser caríssimo. Custo de vida indecente. Fui comprar um singelo esmalte Risqué e quase caí para trás quando vi que custava R$ 8,75 (em Guarapari custa R$ 2,00). Vocês conhecem aquela abóbora bem pequena que mais parece uma tangerina descascada? Não é fácil de encontrar, mas em Brasília vocês acham tranquilamente desde que paguem R$ 55,73 o quilo. Isso mesmo.

Em que pese a beleza do verde da cidade, fiquei triste ao constatar que pouco resta do cerrado original. A sorte é que minha amiga mora bem distante do centro e tivemos a oportunidade de nos deliciar com aquela vegetação um tanto esquisita, mas cheia de encantos. Ainda que não seja a época da florada, as plantinhas e os arbustos de pequeno porte nos ofereceram pequenas flores um tanto tímidas se comparadas à beleza das rosas ou das tulipas, mas igualmente charmosas.

Matei as saudades de ver o Cruzeiro do Sul no céu, pássaros lindos, calangos apressadinhos e insetos que pensava terem sido extintos há pelo menos uns cinquenta anos: os pirilampos. Ficamos em uma casa com um verde sem fim nos fundos do terreno e de uma beleza estonteante. O nascer e o por do sol ainda continuam os mais lindos do Brasil. Tudo perfeito. Assistimos até mesmo uma missa cantada por padres no Mosteiro de São Bento descoberta por acaso por nossa anfitriã.

Um motivo de tristeza foi constatar que a Avenida W3 na Asa Sul, antes um local nobre já não é mais a mesma coisa. Tudo ficou descaracterizado, mas ainda assim, com muito esforço de memória descobri a casa onde morei e o pátio onde patinava, mas não vi crianças brincando nos jardins entre uma casa e outra. Sumiram o barulho e a alegria das crianças que provavelmente estão em shoppings ou navegando na Internet. No entanto, nada disso tirou a minha satisfação de ter visitado a cidade. Voltarei lá em maio do ano que vem em uma época mais fresca, não seca e com direito a ver as flores do cerrado.

Se alguns de vocês forem como eu que sempre tive uma péssima impressão de Brasília, sugiro deixar o preconceito de lado e apreciar um belo lugar. Vocês terão uma agradável surpresa.

Na semana que vem conto mais.

Um lindo final de semana para todos e até o próximo Boletim.