Erika

ERIKA BENTO GONÇALVES, jornalista, repórter, apresentadora e editora-chefe da TV Poços em MG. Foi coordenadora dos programas de TV em duas campanhas políticas e trabalhou na Rede Record de Televisão. Atualmente correspondente na Itália da Band News.


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Um pequeno susto e nada mais

Sexta-feira, 27 de janeiro de 2012, 15h53. Estava já atrasada para sair da loja quando barulhos estranhos surgiram na rua, como um grande comboio passando pesadamente sobre o asfalto. Ou seria uma reforma no prédio, sobre a loja? Não dava para saber ao certo. O barulho foi aumentando e me confundindo, até que as cortinas de painel que enfeitam a vitrine começaram a bater no vidro somando ao barulho da rua (ou do prédio, já não entendia mais nada). Algumas caixas de embalagens caíram no chão e eu – finalmente – entendi o que estava acontecendo: era mais um terremoto.

O chão começou a se mover sob meus pés como se eu estivesse em um barco. Alguns segundos depois o barulho foi parando e os movimentos do chão também. Senti uma ligeira vertigem. Liguei para o meu marido que já estava em processo de evacuação do prédio onde trabalha. Pensei na minha filha na escola. Não à toa. Dois dias antes, um terremoto havia balançado a cidade e ela provou o gosto amargo de transformar o exercício de treinamento (normalmente feito em todas as escolas) em algo real.

Dois dias antes, eu tomava banho e não senti o terremoto. Por isso, não me preocupei com nada. Nem mesmo em ligar na escola e saber como estavam porque nada havia acontecido, para mim. Mas de noite, quando nos encontramos, ela se mostrou magoada por eu não ter feito como algumas mães que foram correndo buscar os pequenos na escola. Fiquei na dúvida se eu era uma mãe relaxada ou uma pessoa que não dá a real importância aos fatos. Para mim, que nem tinha sentido nada, o fato não passara de um pequeno abalo, sem maiores necessidades de se mudar todo o dia por causa disso.

Mas da segunda vez, depois que senti o chão realmente se mover de um lado para o outro e até ligeiramente para cima e para baixo, não restaram dúvidas. Eu tinha que ir até ela. Peguei minha bolsa, olhei em volta para ver se não estava esquecendo de nada (besteira! Nessas horas não se deve pensar muito no que está ficando para trás) e saí. Na rua, todos os lojistas, moradores e pedestres estavam parados em grupos assustados, olhos arregalados e eu, calmamente, caminhando até o carro. Um senhor olhou fixamente para mim como se se perguntasse “mas aquela doida, onde pensa que vai?”.

Liguei o carro e saí.

No caminho, fiquei pensando que se acontecesse novamente, eu só pararia aquele carro quando estivesse com minha filha nos braços. Não a deixaria sozinha novamente. Por sorte, o trânsito na minha cidade é tranquilo e em oito minutos eu estava na escola. Eu e todos os outros pais! Estavam todos em grupos, no pátio na frente da escola. Alguns com seus filhos, outros não e muitos desciam as escadas com várias mochilas, casacos, gorros e acessórios das crianças nas mãos. Entendi logo que os pais haviam se movimentado para trazer para baixo os pertences das crianças para evitar que elas subissem novamente.

Subi correndo as escadas até o segundo andar querendo ver minha filha, mas obviamente ela não estava na sala. Coloquei todas as suas coisas na mochila e fui até o pátio de trás da escola na esperança de vê-la. Avistei de longe o seu gorrinho rosa com o pompom e chamei-a pelo nome. Precisei chamá-la duas vezes bem alto para que ela me ouvisse. Ela se virou, me viu e abriu um sorriso luminoso! O mundo poderia ter acabado naquele momento. Estava com minha filha nos braços. “Você veio desta vez, mamãe! Você veio!”

Para mim, tinha sido um pequeno susto (de 5.4 na escala Richter) e nada mais, mas para ela, não. E ela precisava de mim. Saindo da escola, de mãos dadas com a minha filha, pensei no que sentem as crianças vítimas de catástrofes, longe de seus pais. Eu nunca saberei e, se dependesse de mim, nenhuma outra criança no mundo saberia. Nunca mais. Mas, infelizmente, não sou eu quem decide essas coisas.