Valter

VALTER BERNAT, Advogado e Analista de Sistemas, autor do site e seu editor.


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Quem precisa de atentados terroristas ou terremotos?


Charge do Aroeira para o jornal O Dia - RJ

A poeira dos três prédios que desabaram no Centro do Rio ainda não baixou e, como sempre acontece, engenheiros de obras prontas correm à mídia dando suas versões para o sinistro. A esses juntam-se órgãos fiscalizadores, que não fiscalizam, e autoridades, que não se omitem em dar suas opiniões sobre o acontecido. Antecipam-se aos laudos periciais, cientificamente elaborados, que vão revelar o que realmente aconteceu e definir responsabilidades. Nesse momento, o “achismo” de alguns só serve para aumentar a dor daqueles que tiveram familiares entre os mortos e feridos nos desabamentos. Estes terão pela frente uma árdua luta para saber o que provocou a queda dos prédios e, através do tempo, remover da memória os escombros do sofrimento.

Nos países considerados sérios, onde há uma real administração pública, as prefeituras são responsáveis e cuidam da segurança predial, sendo necessários aprovação e acompanhamento dos projetos técnicos. Além disso, os órgãos das classes ligadas à construção têm sua parcela de responsabilidade perante a Justiça com relação à fiscalização da segurança predial. Aqui, no país da corrupção e dos jeitinhos, os síndicos fazem o que querem e os proprietários idem. Não há fiscalização das obras nos prédios e a única coisa que o Crea e a Prefeitura querem saber é se as taxas foram ou não pagas e em nada colaboram para o bem-estar público. É de espantar que não aconteçam coisas piores e com mais frequência, pois as condições para esses tipos de acidentes estão estabelecidas em nosso país há muito tempo!

Não adianta ficar chorando e acusando as autoridades como os únicos culpados por esta e por muitas outras tragédias. Todos temos uma parcela de culpa. Atire a primeira pedra aquele que, de alguma forma, não tentou burlar as leis; que, já sabendo que temos um esquema corrupto de fiscalização, nunca usou o jeitinho brasileiro. Puxadinhos, autoridades com interesses políticos acima de tudo e um povo que vive arranjando jeitinho de burlar as leis e fazendo as coisas erradas mesmo sabendo que, no futuro, vai ser o prejudicado. Esta tragédia foi só mais uma, pois continuaremos lendo as notícias nos jornais, perdendo entes queridos ou, quem sabe, sendo a próxima vítima enquanto não mudarmos nossa cultura.

Individualismo, egoísmo e falta de preocupação com outras pessoas resultam em acidentes e tragédias. Não somente o desabamento dos edifícios no Centro do Rio, mas atitudes diárias como avanço de sinais, a não devolução do troco “a mais” no mercado, a parada em fila dupla prejudicando o trânsito. Enfim, o princípio do “tudo para mim e que se danem os outros” é, infelizmente, cultural. O mais desanimador é vermos que esses maus exemplos partem das autoridades e parlamentares, com seus atos desonestos, nunca visando ao bem-estar da população.

No Rio de Janeiro, após cada tragédia, parece que seguimos um macabro ritual que, às vezes, nos dá a sensação de vivermos em constantes déjà-vu. O prefeito aparece quase que instantaneamente na cena dando declarações apressadas. Na atual, adiantou que a obra no prédio que desabou não precisava de autorização; o Crea aparece sempre depois, com as costumeiras explicações altamente técnicas; o governador, mesmo nas raras vezes em que se encontra no país, não aparece nunca; a presidente, sempre ocupada com mais um escândalo de corrupção em seu governo, lamenta as mortes e manda condolências às famílias.

Quem precisa de atentados terroristas ou terremotos? O caos é aqui. Bueiros explodindo, Restaurante na Praça Tiradentes, Prédios na Avenida Treze de Maio e, do jeito que o Metrô apresenta defeitos todos os dias, espero que ele não seja o próximo no noticiário. Falta uma atuação mais presente de todos os órgãos fiscalizadores e que as pessoas também contribuam denunciando.