Cassia

CASSIA OLIVEIRA, Natural do Rio de Janeiro - Baixada Fluminense - graduando em Economia na UFRJ, estagiária do grupo de História Econômica do IE/UFRJ, membro da AIESEC-RJ (Associação Internacional de Estudantes) e monitora de inglês em um curso de línguas.


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O dia a dia na pele

Bateu uma coceira enquanto estava no sofá, mas aquela que invade todos os pedacinhos do corpo e que apenas uma solução tem: sair. Era sábado, já às 8 da noite, mas nunca é tarde para juntar uns amigos, escolher um lugar, fazer uma social antes e ir dançar. Numa cidade como o Rio de Janeiro, que não dorme, todo dia é dia de festa. Bares, “boates”, festas, pubs: de tudo se encontra, de segunda a segunda. Ainda mais com o clima de carnaval.

A festa foi boa e, na saída, lá pelas 5 e tantas da manhã, como de praxe, um daqueles “podrões” nos esperávamos. Podrão é como carinhosamente chamamos os lanches vendidos nas barraquinhas/trailers aqui no Rio, como cachorro-quente e as variações dos “X”s: x-tudo, x-burguer, x-egg etc. E, claro, o “x” é para substituir “cheese” (do inglês, queijo).

Dentro do trailer, a mãe cuidava dos lanches. Do lado de fora, diante de uma caixa de isopor imensa, duas meninas, responsáveis pela venda de bebidas. Esperamos o lanche ficar pronto e nos sentamos, logo atrás delas. Uma me olhou e eu sorri. Ela abaixou a cabeça, e esta foi a única resposta que recebi naquele momento.

A menininha me olhou de novo. Puxei conversa, sob os olhos atentos da moça no trailer, a mãe. Perguntei, então, se não estava cansada, pois com certeza já estava à noite toda ali, vendendo bebidas. Ela respondeu que estava acostumada e que, quando fica em casa, não consegue dormir no “horário normal” e deu um belo sorriso. Senti que tinha ganhado a confiança inicial.

Perguntei qual era a sua idade, e demonstrando grande interesse na conversa, respondeu 7, e que aquela outra menina, ao lado, era sua irmã, de 9. Antes de me deixar soltar alguma palavra de espanto, pois pareciam mais velhas, ela continuou: “meu irmão está em casa, dormindo, ele é mais novo. As outras já são mais velhas, casadas. E os outros meninos moram com os pais. Advinha quantos filhos minha mãe tem?”

O meu chute foi modesto, não chegou perto dos 10, que ouvi como resposta. Olhei, imediatamente, para a mãe. Não tinha nem seus 40 anos. Perguntei quantos anos tinham as irmãs “mais velhas, casadas”: uma tinha 15, a outra, 19. “Nossa!” foi a primeira coisa que me veio à cabeça, seguida de “mas vocês duas vão estudar primeiro, né? Filhos só depois dos 30!”.

“Eu não quero ter filho, nenhum, minha mãe já tem muitos”, a de 7 anos respondeu, com muita certeza. E prosseguiu, com grande sorriso no rosto: “quero ser psicóloga!”. Respondi com um “É isso aí! Estudar primeiro, correr atrás do que você quer”. E ela, em tom calmo e simples, retrucou, mostrando já sua filosofia de vida, marcada em seus pequenos grandes sete anos: “É, estudar. Não vai ser fácil, mas... estudar.”

Desviou o assunto, olhou para o chão, e notou meus sapatos sujos. Fez um comentário dentre risos e muitos dentes bonitos, alegando que eu tinha entrado para a festa com os sapatos limpos e saído com os pés sujos de graxa. Todos riram. E todos foram. “Até semana que vem”, ela disse. Até...